Crônica escrita por Mauro Mota
É melancólico o destino de algumas bibliotecas particulares do Recife, reunidas durante anos a fio de buscas em editoras e sebos daqui, de outros Estados e países. Coleções de História, Linguística, Direito, Literatura. Autores lidos e mantidos nas melhores encadernações, algumas parecendo ter sensações humanas no manuseio das consultas e da releitura. As mãos não as pegam com violência. Antes com as carícias sempre renovadas, escorrendo pela ponta dos dedos que viram as páginas com a ternura de quem virasse uma criança adormecida no berço.
Às vezes há uma ilusão acústica. Se for de noite e houver silêncio, se estivermos sós num recanto da casa, as palavras impressas fogem do seu mutismo gráfico e adquirem para nós os tons da voz mais pura de quem as escreveu. Temos o poder da ubiquidade. Vamos para um território de fantasmas e melodias.
Esse amor de bibliófilo é um amor sem declínio. Amor que o tempo revigora em cada dia, em cada noite. Também com os seus conflitos, quando a preferência é maior por determinados volumes. Neste, o bibliófilo, em vez de tinta impressa, encontra sangue em circulação, sangue que se comunica com o seu e o ajuda a viver nas suas mágoas e na sua solidão. Mas, de qualquer modo, o bibliófilo não é imortal como tantos dos livros.
Passado o sétimo dia, como se um ciúme inconsciente os instigasse, os herdeiros determinam a dispersão daquelas peças de mais longa convivência do morto. Consideram os livros usurpadores e intrusos. Decretam o seu banimento.
Não há o menor respeito pelo gosto e pelas preferências de quem passou o tempo a juntá-los e a conhecê-los na intimidade, a tirar deles ensinamentos e experiência. É preciso desocupar o lugar. A biblioteca forma uma grande família com ordem de despejo. É como se casais fossem separados, velhos enterrados vivos, filhos pequenos arrancados para sempre dos braços das mães.
A dispersão é total sem ao menos a medição dos valores literários e históricos entregues aos licitantes. Estes muitos sabem dar um bom destino às suas quotas; outros, não. Afinal a tristeza maior é a do retalhamento da biblioteca. Ela, que passou toda uma época a constituir-se, desfaz-se em menos de uma semana.
Despovoam-se as estantes, as coleções perdem a unidade, os livros dizem adeus aos companheiros de tantos anos, vizinhos de prateleiras. Mãos estranhas vão agora possuí-los e não se sabe de que modo. É como se a morte fosse pouco e um mundo desabasse em cima do cadáver de quem o construiu.
Capitão de fandango. Recife, CEPE, 1960
Fonte: Cronistas de Pernambuco/ Orgs. Antônio Campos, Luiz Carlos
Monteiro. - Recife: Carpe Diem Edições e Produções, 2010.

