Os homens dividem-se,
na vida prática, em três categorias - os que nasceram para mandar, os que
nasceram para obedecer, e os que não nasceram nem para uma coisa nem para
outra. Estes últimos julgam sempre que nasceram para mandar; julgam-no mesmo
mais frequentemente que os que efetivamente nasceram para o mando.
O característico
principal do homem que nasceu para mandar é que sabe mandar em si mesmo.
O característico
distintivo do homem que nasceu para obedecer é que sabe mandar só nos outros,
sabendo obedecer também. O homem que não nasceu nem para uma coisa nem para
outra distingue-se por saber mandar nos outros mas não saber obedecer.
O homem que nasceu para
mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer
é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são
impostos (seja por superiores, seja por fórmulas sociais), e de transmitir aos
outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor
de obediência.
O homem que não nasceu nem para mandar nem para obedecer sabe só
mandar, mas como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é
obedecido por qualquer circunstância externa - o cargo que exerce, a posição
social que ocupa, a fortuna que tem...
Fernando Pessoa, in
'Teoria e Prática do Comércio'

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