Translate

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Príncipe, um livro maldito.

   O livro “O Príncipe” do autor florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), é, sem a menor sombra de dúvida, uma obra literária polêmica na acepção da palavra. Ganhou diversas interpretações e várias deformações. Mas a ideia que se cristalizou entre nós quando atribuímos a alguém o adjetivo maquiavélico, derivado do seu nome, queremos dizer que determinada pessoa é ardilosa, falsa, enganadora, em suma, o sujeito é um mau caráter.
    É preciso conjugar alguns aspectos históricos e políticos, da Florença renascentista, para que possamos entender o pensamento deste conterrâneo de Dante Alighieri (1265-1321).  Maquiavel viveu numa época em que a península itálica estava dividida em cinco grandes e desunidos Estados; no sul, o reino de Nápoles, no noroeste o ducado de Milão e a república democrática de Veneza e no centro e no centro a república de Florença e os estados pontifícios. Formavam uma sociedade intelectualmente brilhante e artisticamente criadora, mas sujeita aos piores exemplos de degradação moral e de corrupção política, a crueldade, a repressão violenta e o recurso consuetudinário ao assassinato tornaram-se fatos correntes do governo. A qualquer momento, pela força das armas, derrubavam-se os governantes. Vivia-se no sentido literal, a frase hobbesiana “o homem é o lobo do homem”.  Foi esse o mundo em que nasceu, viveu e morreu Nicolau Maquiavel.  
    Condenado por uma frase que jamais escreveu, 'Os fins justificam os meios'. Que provocou e ainda provoca tanta celeuma e debates apaixonados atinentes a sua obra. Tudo ocasionado pelo fato dele ter mostrado as relações políticas da época segundo as quais elas realmente aconteciam e não a maneira pela qual seria melhor que acontecesse. Numa sociedade regida pelos preceitos da Igreja Católica, ele estabeleceu novos padrões de moralidade política, separou teoricamente a política, da moral convencional e cristã o que já acontecia na prática, e acabou com a justificação religiosa para o poder político. Dadas às circunstâncias, pode-se imaginar a turbulência que as suas ideias causaram.  
    O conceito de moral, em Maquiavel, está diretamente ligado aos conceitos de fortuna e virtú. Fortuna é o acaso, a sorte, o destino, que não surge, porém, como fator inexorável. Virtú é a capacidade de domá-lo, de construí-lo favoravelmente aos desígnios do ator político. É a capacidade de fazer com que o acaso seja transformado em uma sucessão de eventos favoráveis, sendo pensada, ao mesmo tempo, como flexibilidade, capacidade de adaptar-se à fortuna, e ousadia, capacidade de sobrepor-se a ela.
   Surgiram na mesma época outros livros de conselhos aos governantes, o mais conhecido é de autoria de Erasmo de Roterdã(1466-1536). A Educação de um Príncipe Cristão tem muito mais em comum com um outro tratado de idéias políticas, a Utopia, de Thomas Morus (1478-1535), do que com O Príncipe. Erasmo aludia a um governo baseado na tradição cristã e no poder hereditário, o que é o oposto do pensamento maquiaveliano.    

   A maneira pela qual Maquiavel descreveu na sua obra mais conhecida, as qualidades e atitudes que o príncipe (a palavra príncipe é referente a qualquer chefe de estado) deveria ter para conquistar e manter-se no poder do estado, eternizou-o como o primeiro teórico da política. Ele destacou como nunca antes na história, a importância do Estado entre as instituições políticas e estabeleceu, há mais de 450 anos atrás, o que iria ser depois do colóquio da UNESCO de 1948 em paris, o fulcro da ciência política contemporânea.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

}