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quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Panem et circenses

           (Pão e circo)


  A fonte é um trecho de Juvenal, em que se ressalta que o povo romano, que já foi fora reserva  de valentes soldados e espinha dorsal do poder de Roma, nos seus tempos estava tão inane que só desejava panem ET circences. Paralelo significativo está em Principia historiae de Frontão: é o imperador Tibério que afirmava que o povo é governado sobretudo annona et spectaculalis, “com comida e espetáculos”. Díon de Prusa, ademais, lembra um juízo semelhante, formulado por um autor não identificado, sobre os comportamentos do povo de Alexandria. Paren et circenses é locução ainda usada para indicar o comportamento popular semelhante ao da plebe de Juvenal, assim como um método de governo marcado  pela demagogia barata e tendente a manter os súditos na ignorância e na falta de raciocínio, contentando-os com as necessidades materiais e os divertimentos fáceis. G. Giusti atribuiu a Lourenço, o Magnífico, a expressão, agora proverbial, Pane e feste tengono Il popol quieto; uma variante é a frase que teria sido pronunciada por muitos governantes, sobretudo pelos Bourbon: O povo tem necessidade de três F: festa, farinha e forca.  

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

As cotas foram Aprovadas, e agora?


  O máximo que poderá ocorrer é o que já esta acontecendo, ou seja, o governo aumentar os investimentos nos programas Prouni e Fies, por conseguinte, provocando o aumento do contingente de estudantes das caras, faculdades privadas. A divisão nas faculdades privadas será assim: 40% Prouni, 40% Fies e 20% que pagaram normalmente. Já as públicas sofreram perdas substanciais na qualidade e no seu quadro de professores, leve-se em conta, os professores que abrirão mão do tempo integral para ensinar nas privadas, assim, com menos tempo para se dedicar às pesquisas a faculdade pública perderá seu grande diferencial o tempo e a dedicação exclusiva dos seus professores.
  A abertura das públicas para as pessoas de menor poder econômico contra o grande negócio que se tornou as privadas, para seus investidores, levara alguns setores acadêmicos a quase monopolização de alguns cursos como já esta acontecendo com o Direito e a Administração. Em suma, a intenção das cotas até pode ser boa, mas como tudo nesse país terá por fim o interesse econômico de poucos abastados. E disse a sabedoria popular: a água só corre para o mar.
 Ser contra ou a favor das cotas é o mínimo que podemos fazer. Seria muito mais interessante se toda a sociedade participasse dessa decisão discutindo e  aprimorando a ideia, assim alcançariamos outros caminhos que satisfizesse a maioria. Isto, sim, seria mais democrático.


terça-feira, 7 de agosto de 2012

A Mulher "Boneca"


  A modelagem artificial do corpo humano, no século XX, de início teve forte adesão dos travestis, em busca de se aproximar à estética feminina, por isso ficaram conhecidos pela antonomásia, pejorativa, boneca. O apelo publicitário por  intervenções cirúrgicas, em mulheres com o corpo humanamente perfeito, tem por objetivo fazer com que as mulheres enxerguem defeitos onde não há defeito algum, além de atrelar status às operadas. Boneca também é analogia para mulher fisicamente atraente. A mulher moderna, quando criança brinca com a boneca, adulta quer ser “a boneca”.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Família dos livros

 Crônica escrita por Mauro Mota



  É melancólico o destino de algumas bibliotecas particulares do Recife, reunidas durante anos a fio de buscas em editoras e sebos daqui, de outros Estados e países. Coleções de História, Linguística, Direito, Literatura. Autores lidos e mantidos nas melhores encadernações, algumas parecendo ter sensações humanas no manuseio das consultas e da releitura. As mãos não as pegam com violência. Antes com as carícias sempre renovadas, escorrendo pela ponta dos dedos que viram as páginas com a ternura de quem virasse uma criança adormecida no berço.
  Às vezes há uma ilusão acústica. Se for de noite e houver silêncio, se estivermos sós num recanto da casa, as palavras impressas fogem do seu mutismo gráfico e adquirem para nós os tons da voz mais pura de quem as escreveu. Temos o poder da ubiquidade. Vamos para um território de fantasmas e melodias.
  Esse amor de bibliófilo é um amor sem declínio. Amor que o tempo revigora em cada dia, em cada noite. Também com os seus conflitos, quando a preferência é maior por determinados volumes. Neste, o bibliófilo, em vez de tinta impressa, encontra sangue em circulação, sangue que se comunica com o seu e o ajuda a viver nas suas mágoas e na sua solidão.  Mas, de qualquer modo, o bibliófilo não é imortal como tantos dos livros.  
  Passado o sétimo dia, como se um ciúme inconsciente os instigasse, os herdeiros determinam a dispersão daquelas peças de mais longa convivência do morto. Consideram os livros usurpadores e intrusos. Decretam o seu banimento.
  Não há o menor respeito pelo gosto e pelas preferências de quem passou o tempo a juntá-los e a conhecê-los na intimidade, a tirar deles ensinamentos e experiência.  É preciso desocupar o lugar. A biblioteca forma uma grande família com ordem de despejo.   É como se casais fossem separados, velhos enterrados vivos, filhos pequenos arrancados para sempre dos braços das mães.
  A dispersão é total sem ao menos a medição dos valores literários e históricos entregues aos licitantes. Estes muitos sabem dar um bom destino às suas quotas; outros, não. Afinal a tristeza maior é a do retalhamento da biblioteca. Ela, que passou toda uma época a constituir-se, desfaz-se em menos de uma semana.
  Despovoam-se as estantes, as coleções perdem a unidade, os livros dizem adeus aos companheiros de tantos anos, vizinhos de prateleiras. Mãos estranhas vão agora possuí-los e não se sabe de que modo. É como se a morte fosse pouco e um mundo desabasse em cima do cadáver de quem o construiu.

Capitão de fandango. Recife, CEPE, 1960


Fonte: Cronistas de Pernambuco/ Orgs. Antônio Campos, Luiz Carlos
Monteiro. - Recife: Carpe Diem Edições e Produções, 2010.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Quamvis sublimes debent humiles metuere

(Mesmo quem está nas alturas deve temer quem está no chão)


  Com esta gnoma Fedro introduz  a fábula da raposa que, querendo libertar os filhotes arrebatados pela águia, põe fogo na árvore  em que ela está pousada: portanto, um animal tão poderoso quanto a águia deve temer mesmo um outro animal como a raposa, que não pareceria capaz de fazer-lhe mal. Máxima similar encontramos em Publílio Siro (Inimicum quamvis humilem docti est metuere (É próprio do sábio temer o inimigo, mesmo o inferior); esse motivo também recorre nas tradições proverbiais modernas: nas várias línguas européias existem provérbios correspondentes ao francês Il n'est nul petit ennemi (Não há inimigo pequeno) e aos brasileiros Uma mosca morde o homem, Disso vira uma ferida, Da ferida o homem morre: A mosca tirou-lhe a vida. O tolo é quem cuida que o seu inimigo se descuida. O italiano tem Nessun disprezzerai, Ché Il più piccol nemico può darti briga assai (Não despreze,  Porque o menor inimigo pode lhe dar muito problema)

Fonte: dicionário de sentenças latinas e gregas / Renzo Tosi

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Postes de Ferro Doce

Centro antigo de Sampa: a beleza retilínea de uma arquitetura que mostra toda a austeridade do concreto emoldurado pelos seus postes de ferro doce regados pela garoa.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Neuromodismo

  Modismo é o uso ou a prática de algo passageiramente. Todos os seguimentos da sociedade estão sujeitos a aderir ou associar-se a algum tipo de modismo. Quando determinado grupo assimila alguma moda acaba criando um conjunto formado por elementos comuns dentro do conjunto e os indivíduos não pertencentes àquele conjunto são tidos como o Outro(diferente) e, portanto tendem a ser discriminados.
  Todavia, quando a ciência é afetada por modismos, além de dispensar o rigor metodológico pode ser bastante perigoso, vide a neurologia atual. Em 1837, o fisiologista tcheco, J.E Purkinje(1787-1869), fez a primeira descrição dos neurônios e de lá para cá se descobriu que o cérebro funciona à custa de uma série de substâncias químicas chamadas neurotransmissoras. 
  Os neurotransmissores são responsáveis pelo processo cerebral, logo todo transtorno do humor ou comportamento tem como causa um desequilíbrio químico cerebral. Essa é a nova moda dos consultórios psiquiátricos e que conquistou muitos psicólogos, mundo afora.
  O tratamento medicamentoso irresponsável pode trazer  causas e consequências em prol ou contra a saúde do paciente. Por isso é necessário (re)pensar e buscar outras possibilidades de tratamento para além das fluoxetinas e  sertralinas da vida.

sábado, 26 de maio de 2012

A indústria cultural seja louvada

  A solução para a crise Européia foi encontrada hoje. Roberto Medina, o publicitário e idealizador do rock in rio, esta com o sorriso de uma orelha à outra de tanta felicidade. Realiza mais uma versão do Rock in rio Lisboa, neste momento, e ha pouco declarou que foram 92 mil ingressos vendidos para a noite do metal, hoje.
  A economia portuguesa e os demais países da zona do euro vão de mal a pior. O Primeiro Ministro Português incentiva até a imigração para outros países, o principal banco de Barcelona, hoje, declarou falência. Há algumas semanas as ruas da Espanha foram tomadas por protestos. Derrubadas de Governo em outros países. Enquanto isso um mega evento, com ingressos caríssimos, é sucesso de público.      
  Não se precisa mais de Pão e circo, mártires e heróis(esses, agora, só nós gibis e nas telas) para entreter, guiar ou salvar. Agora, precisamos é de celebridades. E parafraseando Sarney: A indústria cultural seja louvada.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Pele Que Habito


  
  A vingança privada pode se virar contra o seu agente. Nada poderia ser mais cruel para um estuprador do que uma colpoplastia mais conhecida por vaginoplastia, ou seja, mudança de sexo. A transmutação do Vicente para Vera transcendeu a moldagem física e agiu na psicologia do operado. Essa mudança do comportamento foi indispensável para seduzir e conquistar a confiança do seu próprio algoz.  O trabalho do Cirurgião foi tão bem feito que ironicamente o estuprador também foi estuprado e provocou a misericórdia no pai da sua vítima. A criatura e o criador ambos carentes e atraídos um pelo outro se envolvem e isso termina com o caçador tendo seu dia de caça. Mas nada que aconteça o libertará da eterna prisão num corpo de mulher.  

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Os opressores de ontem são os oprimidos de hoje.


 
  “Só se pode aprender bem o que se aprende dificilmente”. Esse adágio propagou-se na educação brasileira do século 19 até meados dos anos 30. O método de ensino daquela época respaldava-se na pedagogia da violência. As aulas eram ministradas por meio de tremendas surras de palmatórias e de outros métodos de humilhação dos alunos relapsos. A violência continua presente nas atuais escolas, só que agora o professor é a vitima das protérvias agressões dos alunos. A educação encontra-se à beira de um caos. Os consultórios psiquiátricos recebem cada vez mais professores acometidos com a síndrome do pânico, tornam-se assíduos consumidores de prosac (fluoxetina). Os opressores de ontem são os oprimidos de hoje.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Que notas são essas?


  
  A frase “Que notas são estas"? Sofreu uma impressionante deformação semântica. É de admirar até o mais proeminente filólogo da Língua Portuguesa, como as mesmas palavras aplicadas nas mesmas circunstâncias puderam mudar totalmente de significado ao longo de algumas décadas. No tempo em que os pais questionavam seus filhos quando tiravam nota baixa na escola, resolutos e incisivos, perguntava-os “Que notas são estas”? Complementavam, "Filho você vai ficar de castigo, sem brincar, para estudar mais." Em tempos de inclusão digital a sentença funambulesca “Que notas são estas”? É dirigida pelos pais ao professor que inerme e frustrado ainda tem que escutar essa, “Meu filho tem que ser aprovado”. Na Grécia Antiga, Sócrates por tentar iluminar algumas mentes foi condenado a tomar cicuta. No Brasil “País do Futuro”, os professores tomam Tarja Preta.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O Príncipe, um livro maldito.

   O livro “O Príncipe” do autor florentino Nicolau Maquiavel (1469-1527), é, sem a menor sombra de dúvida, uma obra literária polêmica na acepção da palavra. Ganhou diversas interpretações e várias deformações. Mas a ideia que se cristalizou entre nós quando atribuímos a alguém o adjetivo maquiavélico, derivado do seu nome, queremos dizer que determinada pessoa é ardilosa, falsa, enganadora, em suma, o sujeito é um mau caráter.
    É preciso conjugar alguns aspectos históricos e políticos, da Florença renascentista, para que possamos entender o pensamento deste conterrâneo de Dante Alighieri (1265-1321).  Maquiavel viveu numa época em que a península itálica estava dividida em cinco grandes e desunidos Estados; no sul, o reino de Nápoles, no noroeste o ducado de Milão e a república democrática de Veneza e no centro e no centro a república de Florença e os estados pontifícios. Formavam uma sociedade intelectualmente brilhante e artisticamente criadora, mas sujeita aos piores exemplos de degradação moral e de corrupção política, a crueldade, a repressão violenta e o recurso consuetudinário ao assassinato tornaram-se fatos correntes do governo. A qualquer momento, pela força das armas, derrubavam-se os governantes. Vivia-se no sentido literal, a frase hobbesiana “o homem é o lobo do homem”.  Foi esse o mundo em que nasceu, viveu e morreu Nicolau Maquiavel.  
    Condenado por uma frase que jamais escreveu, 'Os fins justificam os meios'. Que provocou e ainda provoca tanta celeuma e debates apaixonados atinentes a sua obra. Tudo ocasionado pelo fato dele ter mostrado as relações políticas da época segundo as quais elas realmente aconteciam e não a maneira pela qual seria melhor que acontecesse. Numa sociedade regida pelos preceitos da Igreja Católica, ele estabeleceu novos padrões de moralidade política, separou teoricamente a política, da moral convencional e cristã o que já acontecia na prática, e acabou com a justificação religiosa para o poder político. Dadas às circunstâncias, pode-se imaginar a turbulência que as suas ideias causaram.  
    O conceito de moral, em Maquiavel, está diretamente ligado aos conceitos de fortuna e virtú. Fortuna é o acaso, a sorte, o destino, que não surge, porém, como fator inexorável. Virtú é a capacidade de domá-lo, de construí-lo favoravelmente aos desígnios do ator político. É a capacidade de fazer com que o acaso seja transformado em uma sucessão de eventos favoráveis, sendo pensada, ao mesmo tempo, como flexibilidade, capacidade de adaptar-se à fortuna, e ousadia, capacidade de sobrepor-se a ela.
   Surgiram na mesma época outros livros de conselhos aos governantes, o mais conhecido é de autoria de Erasmo de Roterdã(1466-1536). A Educação de um Príncipe Cristão tem muito mais em comum com um outro tratado de idéias políticas, a Utopia, de Thomas Morus (1478-1535), do que com O Príncipe. Erasmo aludia a um governo baseado na tradição cristã e no poder hereditário, o que é o oposto do pensamento maquiaveliano.    

   A maneira pela qual Maquiavel descreveu na sua obra mais conhecida, as qualidades e atitudes que o príncipe (a palavra príncipe é referente a qualquer chefe de estado) deveria ter para conquistar e manter-se no poder do estado, eternizou-o como o primeiro teórico da política. Ele destacou como nunca antes na história, a importância do Estado entre as instituições políticas e estabeleceu, há mais de 450 anos atrás, o que iria ser depois do colóquio da UNESCO de 1948 em paris, o fulcro da ciência política contemporânea.
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